LEITURA: PROJETANDO CIDADÃOS


Nunca se viu tanta propaganda incentivando a leitura como se vê hoje na televisão. Parece até uma incoerência, já que o maior inimigo do livro é a caixinha de imagens. Acrescente ainda à TV o computador, o tablet e o celular smartphone como os grandes arqui-inimigos dos “arcaicos” livros e você entenderá como é inglória essa luta contra a alienação de nossas crianças.
Vemos diariamente meninas (crianças ainda) com seus telefones e tablets ignorando a vida fora da virtualidade. A cada dia, com menos idade, o ser humano está ignorando o mundo à sua volta e mergulhando em outro mundo, onde pode ser quem quer, falar o que quiser e, pior, expor sua intimidade a um sem-fim de pessoas: amigos, anônimos e, principalmente, bandidos. Esses sim realmente preocupados em conhecer a intimidade de nossas crianças.
Aos pais cabe controlar seus filhos sob pena de perdê-los para um mundo que está, a cada dia, mais distante daquele em que fomos criados. Num primeiro momento isso seria até interessante, pois demonstraria nossa evolução, mas o que se vê nessa mudança não é “um mundo melhor” como se apregoa. Vemos todos os dias jovens tristes, depressivos, descontentes. Esta última palavra que talvez defina o jovem: descontentamento.
Tudo não é o suficiente para o jovem de hoje. Ele sempre quer mais. Em uma sociedade baseada no capitalismo, essa ambição poderia até soar como qualidade, mas descontentamento exagerado gera depressão. Quer ver? Suponha que seu filho (ou filha) peça insistentemente um lançamento de celular. Você após desistir de argumentar (ou nem fazer isso) dá a ele o aparelho. Passam-se alguns dias e a insatisfação volta a aparecer. Não há alegria, não há tranquilidade, não há contentamento. E um jovem descontente é terreno fértil para depressão, ou pior, fuga da realidade. Drogas!
Você pode até estar pensando: mas e o que o livro tem a ver com isso tudo? Podemos afirmar com conhecimento de causa, pelas experiências que passamos com nossos alunos, que jovens ao tornarem-se leitores assíduos, costumam apresentar uma melhora no humor, na mansidão e no respeito aos mais velhos. Isso ocorre, talvez, porque, para ler o leitor deve se distanciar das coisas ao seu redor e concentrar-se naquilo que faz: lê. Além disso, os autores de livros costumam em suas obras trazerem esses tipos de valores, que são ignorados ou desqualificados pelas nossas telenovelas e pelos vídeos, chamados de virais (pelo exagerado número de acessos), postados na Internet. A “rede” tem cumprido seu papel na "desalienação" de muitos jovens. Um exemplo disso são as manifestações motivadas e organizadas pelas redes sociais, mas pode-se perceber que os líderes virtuais são sempre pessoas comprometidas com a intelectualidade, ou seja, são sempre leitores.
Não é preciso ser cientista para perceber o que uma pessoa “lida” tem de diferente dos demais, é só conversar com ela. Quem lê pensa por si mesmo, ou pelo menos possui um número maior de ideias para se chegar à sua própria. Quem lê, tem assunto: ouviu falar de lugares, de pessoas, de modelos políticos, de cultura, de arte, de tragédias, de religiões, de ciência. É isso: quem lê tem ciência. Ciente do que acontece à sua volta e ao seu redor, o leitor deixa de ser espectador de sua vida e passa a ser ator, personagem principal, como bem diria Augusto Cury.
Por isso nossa preocupação com a leitura é tão grande. Valorizamo-la, tanto quanto qualquer outra matéria ou prova e despendemos muito tempo das aulas com isso. Escolhemos nossos paradidáticos, não por uma convenção ou conveniência para com materiais ou currículos. A seleção dos títulos se dá pelo interesse do aluno em primeiro lugar. Se ele não estiver disposto a ler uma obra, fatalmente matamos sua potencialidade leitora. Esse é o nosso jeito de fazer cidadãos. Criando leitores desde o pré (sua primeira tarefa é contar um livro que lhe foi lido pelos responsáveis) até ao ensino fundamental (quando fazem provas com valores iguais aos das provas de conteúdo). Afinal é esse o cidadão que preparamos: consciente e com ciência.

2 comentários:

  1. Olá professor,

    Concordo e digo mais, muito obrigada. Obrigada por nos presentear com suas citações de livros durante as aulas. Obrigada por nos incentivar a ler. Obrigada pelas indicações de títulos maravilhosos. Obrigada por, de certa forma, nos "forçar" a ler livros. Isso tudo foi fundamental em minha formação e acredito que na de muitos alunos que receberam seus ensinamentos. Hoje posso dizer que sou uma devoradora de livros e devo tudo isso a você. Mais um obrigada por toda sua dedicação, carinho, paciência e respeito. E parabéns por ser esse professor que é.

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    1. Muito obrigado, Elidiane. Numa profissão tão desvalorizada como a nossa. Um depoimento como o seu dá-nos motivação para seguirmos adiante, apesar das dificuldades.
      Grande abraço!

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